Durante muitos anos, o diagnóstico da endometriose foi associado à realização de uma cirurgia.
A paciente apresentava cólicas intensas, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais ou dificuldade para engravidar. Os sintomas levantavam a suspeita, mas a confirmação era frequentemente vinculada à visualização das lesões durante uma laparoscopia e à análise do tecido retirado.
Essa forma de diagnosticar a endometriose mudou.
Atualmente, não se indica uma cirurgia com a finalidade exclusiva de descobrir se a paciente tem ou não a doença. A investigação é conduzida por meio da história clínica, do exame físico e de exames de imagem especializados. A combinação dessas informações permite estabelecer o diagnóstico e definir a conduta na grande maioria dos casos.
A cirurgia pode fazer parte do tratamento quando existe uma indicação terapêutica concreta, como o comprometimento de órgãos, alterações anatômicas relevantes ou sintomas que não responderam às estratégias clínicas. Nesses casos, o procedimento não é realizado para procurar a endometriose, mas para tratar uma doença previamente investigada e mapeada.
A cirurgia já foi considerada o principal caminho para confirmar a doença
A endometriose pode se apresentar de maneiras muito diferentes. Algumas lesões são superficiais e difíceis de identificar nos exames. Outras comprometem os ovários, o intestino, a bexiga, os ureteres ou regiões profundas da pelve.
Durante muito tempo, os recursos de imagem não permitiam mapear essas alterações com a precisão que existe atualmente. Diante de sintomas sugestivos, a laparoscopia era realizada para observar diretamente a pelve, identificar possíveis focos e retirar material para análise.
Essa cirurgia tinha finalidade essencialmente diagnóstica. O problema é que a laparoscopia, embora minimamente invasiva, continua sendo um procedimento cirúrgico. Ela envolve anestesia, recuperação e custos. Além disso, nem toda paciente com sintomas de endometriose precisa de tratamento cirúrgico.
Se a paciente não precisa de uma cirurgia para ser tratada, por que seria necessário operá-la apenas para descobrir se a doença existe?
O que mudou no diagnóstico da endometriose?
A mudança não aconteceu por causa de um único exame, mas um dos principais marcos ocorreu em 2007, com o desenvolvimento de um protocolo de ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal pelo Dr. Maurício Simões Abrão e pelo Dr. Manoel Orlando Gonçalves.
O protocolo permitiu avaliar de maneira sistematizada não apenas a presença de lesões, mas também sua localização, extensão e relação com estruturas como intestino, ovários, bexiga e regiões profundas da pelve.
O estudo publicado naquele período demonstrou elevada precisão do método na identificação da endometriose profunda, especialmente em lesões de retossigmoide e da região retrocervical. A partir desses resultados, o protocolo passou a ser adotado e replicado por diferentes centros especializados no Brasil e em outros países.
Esse avanço ajudou a modificar o papel dos exames de imagem. O ultrassom deixou de ser utilizado apenas para procurar cistos ovarianos e passou a funcionar como uma ferramenta de diagnóstico e mapeamento da endometriose.
Quando realizado por profissionais treinados, ele permite identificar previamente áreas comprometidas, orientar a escolha do tratamento e, quando existe indicação cirúrgica, planejar o procedimento e a equipe necessária.
Essa evolução, somada à valorização dos sintomas, da história clínica e do exame físico, tornou possível estabelecer o diagnóstico e definir a conduta sem recorrer a uma cirurgia com finalidade exclusivamente diagnóstica.
A contribuição histórica está documentada no estudo prospectivo publicado por Abrão e colaboradores em 2007, posteriormente incorporado ao Manual de Endometriose da FEBRASGO.
Hoje, a investigação pode começar muito antes de qualquer decisão cirúrgica. A paciente não precisa esperar que a doença seja visualizada durante uma operação para que seus sintomas sejam considerados relevantes.
A investigação começa pela suspeita clínica
Antes de falar em confirmação, existe uma etapa fundamental: reconhecer que os sintomas podem estar relacionados à endometriose. Nenhum sintoma isolado confirma a doença. O que chama atenção é o padrão formado por eles, sua evolução e a relação com o ciclo menstrual.
- Cólica menstrual incapacitante
- Dor profunda durante as relações sexuais
- Dor pélvica fora da menstruação
- Dor para evacuar ou urinar durante a menstruação
- Alterações intestinais cíclicas
- Dificuldade para engravidar
- Sintomas que interferem no trabalho, nos estudos ou na rotina
O que significa diagnóstico clínico de endometriose?
O diagnóstico clínico é construído a partir da história da paciente, dos sintomas, do exame físico e da avaliação de outras possíveis causas. Em algumas situações, esse conjunto produz uma suspeita consistente para que médico e paciente conversem sobre tratamento e acompanhamento, mesmo sem confirmação cirúrgica.
Isso pode ser chamado de diagnóstico clínico ou presumido. A palavra presumido não significa que os sintomas estejam sendo tratados como uma suposição sem fundamento. Significa que a conclusão foi construída sem visualização cirúrgica e sem análise histológica de uma lesão.
Qual é o papel dos exames de imagem?
O ultrassom transvaginal especializado e a ressonância magnética podem procurar alterações compatíveis com endometriose e avaliar sua localização e extensão. Quando realizados por profissionais experientes, ajudam a identificar endometriomas, nódulos profundos e possíveis comprometimentos do intestino, da bexiga e dos ureteres.
O exame deixa de ser apenas uma tentativa de encontrar endometriose e passa a participar do planejamento da conduta: quais órgãos podem estar envolvidos, se é possível acompanhar clinicamente e se uma eventual cirurgia exigirá equipe multidisciplinar.
Um exame normal exclui endometriose?
Não necessariamente. Algumas formas da doença, principalmente lesões superficiais, podem não ser identificadas pelos exames. Um resultado normal não deve ser interpretado automaticamente como prova de que a paciente não tem endometriose.
Nessa situação, é necessário avaliar se o exame foi realizado com protocolo adequado, se foi interpretado por profissional experiente, se os sintomas formam um padrão sugestivo e se existem outros diagnósticos possíveis. Um exame negativo não encerra a investigação, mas também não permite confirmar sozinho que exista endometriose.
Qual é a diferença entre cirurgia diagnóstica e terapêutica?
A cirurgia diagnóstica é realizada principalmente para procurar a doença e esclarecer o diagnóstico. A cirurgia terapêutica é planejada para excisar lesões já identificadas ou fortemente suspeitadas, considerando os sintomas, os exames, os órgãos envolvidos e os objetivos da paciente.
Quando existe indicação cirúrgica, o ideal é que a operação não seja apenas uma exploração da pelve. A equipe precisa estar preparada para tratar o que foi previamente mapeado, dentro do que foi discutido e autorizado pela paciente.
Quando é possível iniciar o tratamento sem cirurgia?
O tratamento clínico pode ser considerado quando a avaliação clínica e o exame de imagem especializado indicam endometriose, não há sinais de comprometimento que exijam intervenção cirúrgica e os objetivos da paciente permitem essa estratégia.
- Medicamentos hormonais
- Analgésicos ou anti-inflamatórios
- Manejo especializado da dor
- Fisioterapia do assoalho pélvico
- Avaliação reprodutiva quando existe desejo de engravidar
- Monitoramento clínico e, quando necessário, por imagem
A retirada de “possível” deixa claro que, na conduta do Dr. Maurício, o tratamento clínico é iniciado após a confirmação da endometriose pelo exame de imagem.
Receber o diagnóstico não significa precisar de cirurgia
A presença ou a suspeita de endometriose não determina automaticamente o tratamento. A decisão considera intensidade e comportamento dos sintomas, impacto na qualidade de vida, localização das lesões, comprometimento de órgãos, resposta aos tratamentos, fertilidade, reserva ovariana e preferências da paciente.
Perguntas frequentes sobre diagnóstico da endometriose sem cirurgia
É possível diagnosticar endometriose sem cirurgia?
Sim. Atualmente, o diagnóstico é estabelecido por meio da avaliação clínica associada a exames de imagem especializados. Não se indica uma cirurgia exclusivamente para descobrir se a paciente tem endometriose.
A laparoscopia ainda é utilizada para diagnosticar endometriose?
Não se indica laparoscopia com finalidade exclusivamente diagnóstica. A cirurgia é considerada quando existe uma indicação terapêutica concreta e uma doença previamente investigada e mapeada.
Um ultrassom normal exclui endometriose?
Um ultrassom normal não confirma a presença da doença e precisa ser interpretado dentro do contexto clínico. Quando os sintomas persistem, pode ser necessário revisar a qualidade e o protocolo do exame, realizar uma avaliação especializada e investigar outras possíveis causas para o quadro.
Qual exame pode identificar endometriose?
Os principais exames são o ultrassom transvaginal especializado, realizado com protocolo para mapeamento da endometriose, e a ressonância magnética da pelve. A escolha depende das características da paciente e das estruturas que precisam ser avaliadas.
É possível iniciar o tratamento sem confirmação por biópsia?
Sim. O tratamento clínico pode ser iniciado quando a avaliação e o exame de imagem especializado indicam endometriose, sem necessidade de confirmação histológica prévia.
Qual é a diferença entre cirurgia diagnóstica e cirurgia terapêutica?
A cirurgia diagnóstica teria como finalidade procurar ou confirmar a presença da doença. Essa não é a abordagem utilizada pelo Dr. Maurício. A cirurgia terapêutica é planejada para tratar uma endometriose previamente diagnosticada e mapeada por imagem.
Quando a laparoscopia pode ser indicada?
A laparoscopia pode ser indicada com finalidade terapêutica, por exemplo, quando há comprometimento de órgãos, alterações anatômicas relevantes ou outras condições em que os benefícios da intervenção superem seus riscos. Ela não é realizada apenas para confirmar o diagnóstico.
A biópsia é necessária para diagnosticar endometriose?
Não. Quando uma cirurgia é realizada por indicação terapêutica, o tecido retirado pode ser encaminhado para análise histológica. Essa análise complementa a avaliação do material removido, mas não é uma etapa necessária para estabelecer previamente o diagnóstico e iniciar o tratamento.
