Endometriose e fibrose: por que a doença pode alterar a anatomia?

Quando se fala em endometriose, é comum imaginar apenas pequenos focos de tecido semelhante ao endométrio localizados fora do útero.

Essa explicação ajuda a apresentar a doença, mas não descreve tudo que pode acontecer ao redor das lesões.

A endometriose pode estar associada a inflamação persistente, sangramentos locais, reparação tecidual, formação de aderências e desenvolvimento de fibrose. Com o tempo, esses processos podem modificar a mobilidade dos órgãos e, em alguns casos, alterar sua anatomia.

Isso ajuda a compreender por que uma doença classificada como benigna pode produzir dor, obstruções, dificuldade para engravidar e cirurgias de grande complexidade.

A endometriose não é formada apenas pela lesão visível. Existe também uma reação do organismo ao redor dela.

O que é fibrose?

A fibrose é um processo de reparação em que ocorre produção e depósito excessivo de componentes da matriz extracelular, incluindo colágeno.

Quando o organismo sofre uma lesão, uma resposta de cicatrização é esperada. Células são ativadas, substâncias inflamatórias são liberadas e uma estrutura de reparo é formada.

O problema aparece quando essa resposta se mantém ativa ou se torna excessiva. O tecido pode ficar mais espesso, rígido e menos elástico.

A fibrose não é exclusiva da endometriose. Ela pode participar de doenças do fígado, pulmões, rins, intestino e outros órgãos. Na endometriose, ocorre no ambiente das lesões e pode contribuir para a forma como a doença altera a pelve.

Por que a endometriose pode produzir fibrose?

As lesões de endometriose interagem com hormônios, células do sistema imunológico, vasos sanguíneos, fibras nervosas e tecidos próximos.

Episódios repetidos de inflamação e reparação podem estimular células envolvidas na cicatrização. Entre elas estão os fibroblastos, que podem se transformar em células mais ativas chamadas miofibroblastos.

Os miofibroblastos produzem componentes estruturais, contraem o tecido e participam do processo fibrótico. Uma revisão sistemática publicada em 2024 identificou a fibrose e os miofibroblastos como elementos centrais na fisiopatologia da endometriose.

Esse processo não acontece da mesma maneira em todas as mulheres ou em todas as lesões. Tipo de endometriose, localização, tempo de evolução e resposta individual influenciam o resultado.

Inflamação e fibrose são a mesma coisa?

Não. Os dois processos podem estar relacionados, mas não são equivalentes.

A inflamação é uma resposta biológica que envolve células, vasos e mediadores químicos. Pode gerar dor, inchaço e alterações no funcionamento dos tecidos.

A fibrose corresponde a uma modificação estrutural, com aumento de tecido cicatricial e rigidez. Ela pode surgir como consequência de inflamação e reparação repetidas, mas pode permanecer mesmo quando a atividade inflamatória varia.

Essa diferença ajuda a entender por que controlar estímulos hormonais e sintomas não significa necessariamente desfazer uma alteração anatômica já estabelecida.

Fibrose e aderência significam a mesma coisa?

A fibrose ocorre dentro ou ao redor de um tecido, tornando-o mais rígido e espesso. A aderência é uma faixa ou união anormal entre superfícies que deveriam deslizar livremente.

Os dois processos podem coexistir. Uma região com inflamação e fibrose pode favorecer a formação de aderências, fazendo com que ovário, útero, intestino ou outras estruturas fiquem presos uns aos outros.

Por isso, uma paciente pode ter tanto um nódulo fibrótico quanto perda de mobilidade entre os órgãos.

Como a endometriose pode alterar a anatomia da pelve?

A pelve não é formada por órgãos isolados. Útero, ovários, tubas, intestino, bexiga, ureteres, vagina, vasos, ligamentos e nervos ocupam um espaço relativamente pequeno.

Quando surgem lesões profundas, fibrose e aderências, as relações naturais entre essas estruturas podem mudar.

  • Ovários podem ficar aderidos ao útero ou à parede da pelve
  • O útero pode perder parte de sua mobilidade
  • O espaço atrás do útero pode ficar parcialmente ou totalmente fechado
  • Intestino e vagina podem ficar aderidos
  • Ureteres podem ser comprimidos ou envolvidos por fibrose
  • A bexiga pode ficar aderida ao útero
  • Tubas uterinas podem ter sua mobilidade prejudicada

Essas alterações não aparecem em todas as pacientes. Quando acontecem, ajudam a explicar por que o tratamento precisa ser planejado antes da cirurgia.

O que significa pelve congelada?

A expressão pelve congelada é utilizada para descrever uma alteração anatômica extensa em que os órgãos apresentam aderências importantes e pouca mobilidade.

Não significa que exista gelo ou uma interrupção literal dos movimentos. É uma maneira de expressar que estruturas normalmente separadas e móveis estão unidas por doença, fibrose e aderências.

Nessas situações, os limites entre os órgãos podem se tornar difíceis de reconhecer. A cirurgia exige experiência em anatomia pélvica complexa e, algumas vezes, participação de profissionais de diferentes especialidades.

A fibrose pode causar dor?

Pode contribuir, mas a dor da endometriose não possui uma única origem.

A fibrose pode reduzir a elasticidade dos tecidos, alterar a mobilidade dos órgãos e produzir tração sobre estruturas próximas. Também pode coexistir com inflamação, aderências, comprometimento muscular e participação de fibras nervosas.

Entretanto, a quantidade de fibrose observada em um exame ou durante uma cirurgia não permite medir diretamente a intensidade da dor.

Uma paciente pode apresentar grande alteração anatômica e poucos sintomas. Outra pode sentir dor intensa com lesões menores ou menos visíveis. O sistema nervoso, o assoalho pélvico e outras condições associadas também precisam ser considerados.

A fibrose pode afetar o intestino?

Na endometriose intestinal, a lesão e a reação fibrótica podem comprometer a parede do reto ou do sigmoide.

À medida que o tecido se torna mais espesso e rígido, pode ocorrer redução da capacidade de distensão e, em casos selecionados, estreitamento do calibre intestinal.

Possíveis manifestações incluem dor para evacuar durante a menstruação, alteração do hábito intestinal, distensão abdominal e sensação de evacuação incompleta. A intensidade dos sintomas, porém, não corresponde necessariamente ao grau de comprometimento anatômico.

Quando existe estenose importante ou risco de obstrução, a alteração estrutural pode influenciar a indicação cirúrgica.

A fibrose pode comprometer os ureteres?

Sim. A endometriose profunda pode envolver diretamente o ureter ou produzir fibrose ao redor dele.

O ureter é o canal que transporta a urina do rim até a bexiga. Quando comprimido, a passagem da urina pode ser prejudicada e provocar dilatação do sistema urinário acima da obstrução.

O comprometimento pode evoluir com poucos sintomas. Por isso, o mapeamento de uma doença profunda precisa observar não apenas onde a paciente sente dor, mas também órgãos que podem sofrer de maneira silenciosa.

A presença de obstrução urinária é um exemplo de situação em que a anatomia e a função do órgão podem ter mais peso na decisão do que a intensidade da dor.

A fibrose pode interferir na fertilidade?

Pode participar de diferentes mecanismos.

Aderências e distorções anatômicas podem modificar a relação entre ovário e tuba, dificultando a captação do óvulo. Alterações nas tubas podem interferir no transporte. Endometriomas e cirurgias ovarianas também precisam ser considerados dentro da avaliação reprodutiva.

A infertilidade não deve ser atribuída automaticamente à fibrose. Fatores masculinos, idade, reserva ovariana, ovulação, condições uterinas e outros elementos também participam da investigação do casal.

A fibrose aparece nos exames?

O ultrassom especializado e a ressonância magnética podem identificar sinais relacionados a nódulos profundos, tecido fibrótico, aderências e perda de mobilidade.

O ultrassom possui a vantagem da avaliação dinâmica. O examinador pode observar o deslizamento entre os órgãos e perceber quando determinadas estruturas estão fixadas.

A ressonância pode caracterizar áreas de baixo sinal associadas a componentes fibróticos e oferecer visão ampla da pelve.

Nenhum exame consegue representar toda a complexidade microscópica da fibrose. Seu papel é mostrar alterações anatômicas e ajudar a planejar a conduta.

O tamanho da lesão mostra a quantidade de fibrose?

Uma lesão aparentemente pequena pode estar associada a reação fibrótica relevante. Outra lesão maior pode possuir composição diferente.

O tamanho medido é apenas uma das informações. Localização, profundidade, relação com os órgãos, mobilidade, sinais de obstrução e características do tecido também precisam ser analisados.

É por isso que um laudo não deve ser interpretado apenas pelo número de centímetros.

O tratamento hormonal desfaz a fibrose?

Os tratamentos hormonais utilizados atualmente têm como principal objetivo reduzir a atividade cíclica e controlar sintomas relacionados à endometriose.

Eles podem diminuir dor e atividade inflamatória em muitas pacientes, mas não existe demonstração de que consigam reverter de forma consistente uma fibrose anatômica já estabelecida.

Isso não significa que todas as pacientes com fibrose precisam ser operadas. Se não existe comprometimento funcional relevante e os sintomas estão controlados, o acompanhamento pode ser uma estratégia adequada.

A presença de uma alteração estrutural precisa ser interpretada dentro do contexto clínico, e não utilizada isoladamente como indicação de cirurgia.

Quando a fibrose influencia a indicação cirúrgica?

A decisão não depende apenas da existência de tecido fibrótico. Ela considera o que essa alteração está causando ou pode causar.

  • Obstrução ou estreitamento intestinal relevante
  • Comprometimento do ureter e risco para o rim
  • Distorção anatômica associada a sintomas importantes
  • Dor persistente apesar do tratamento clínico
  • Infertilidade em contextos selecionados
  • Massas ou lesões que exigem esclarecimento
  • Impacto funcional sobre órgãos

Uma fibrose extensa sem impacto clínico pode receber uma conduta diferente de uma alteração menor localizada em estrutura essencial.

Por que a cirurgia pode ser mais complexa em áreas fibróticas?

A fibrose pode apagar os planos naturais que separam os órgãos. Tecidos que normalmente seriam identificados e afastados podem estar unidos ou endurecidos.

Isso aumenta a necessidade de reconhecer a anatomia, localizar ureteres, vasos e nervos e separar estruturas sem provocar lesões.

A complexidade não depende somente do tamanho do nódulo. Uma lesão pequena junto ao ureter, por exemplo, pode exigir maior cuidado que uma lesão maior em área de acesso mais simples.

O mapeamento pré-operatório e a participação de equipe multidisciplinar tornam-se especialmente importantes nesses casos.

Retirar a lesão significa retirar toda a fibrose?

Nem sempre é possível ou necessário remover todo tecido fibrótico visível.

O cirurgião precisa equilibrar tratamento da doença e preservação de estruturas importantes. Em algumas regiões, tentar remover todo tecido alterado pode aumentar riscos sem acrescentar benefício proporcional.

O objetivo não é retirar o máximo de tecido. É tratar as alterações relevantes com segurança e preservar função.

Existem medicamentos antifibróticos para endometriose?

Atualmente, não há um medicamento antifibrótico aprovado especificamente para reverter a fibrose da endometriose na prática clínica habitual.

A fibrose tornou-se, porém, uma área importante de pesquisa. Estudos investigam mecanismos moleculares envolvidos na ativação dos miofibroblastos, na produção de colágeno e na interação entre inflamação e cicatrização.

Há pesquisas pré-clínicas com anticorpos, medicamentos antifibróticos e outras moléculas. Resultados em células ou animais não significam que o tratamento já seja eficaz e seguro para pacientes.

Antes de uma nova terapia chegar à prática, ela precisa passar por estudos clínicos capazes de avaliar dose, segurança, efeitos adversos e benefício real.

Por que esse pode ser um caminho importante para o futuro?

Grande parte do tratamento atual está concentrada no controle hormonal, no alívio dos sintomas e na cirurgia quando necessária.

Uma terapia capaz de atuar de maneira segura sobre a fibrose poderia, no futuro, ajudar a impedir a progressão de alterações estruturais ou reduzir a complexidade de determinados casos.

Segundo o Dr. Maurício Simões Abrão, o futuro não deve ser pensado como uma expansão indefinida das cirurgias. O objetivo científico é desenvolver tratamentos que atuem em mecanismos da doença e façam com que menos pacientes precisem de operações extensas.

Essa é uma perspectiva de pesquisa, não uma promessa disponível hoje.

O que a compreensão da fibrose muda para a paciente?

Ela ajuda a compreender por que a endometriose não pode ser avaliada apenas contando focos ou medindo lesões.

Também mostra por que:

  • Sintomas e anatomia nem sempre têm relação direta
  • O mapeamento precisa avaliar órgãos e mobilidade
  • Tratamento hormonal e cirurgia possuem objetivos diferentes
  • Nem toda alteração anatômica exige operação
  • Algumas cirurgias são complexas mesmo quando as lesões parecem pequenas
  • Preservar órgãos e funções é tão importante quanto retirar doença

Compreender a fibrose torna a decisão menos automática e mais conectada ao efeito real da doença sobre aquela paciente.

Conclusão

A endometriose não é formada apenas pelos focos visíveis. Inflamação repetida, reparação tecidual, ativação de miofibroblastos e depósito de colágeno podem produzir fibrose.

A fibrose pode tornar os tecidos mais rígidos, favorecer aderências, reduzir a mobilidade dos órgãos e contribuir para distorções anatômicas. Em alguns casos, pode participar do comprometimento intestinal, urinário ou reprodutivo.

Sua presença não determina automaticamente cirurgia. A decisão depende dos sintomas, da função dos órgãos, dos riscos de progressão, dos objetivos da paciente e da possibilidade de tratamento seguro.

Ainda não existe terapia antifibrótica aprovada especificamente para a endometriose, mas esse é um dos campos mais importantes de investigação atual.

Compreender a fibrose ajuda a enxergar a endometriose não apenas como uma coleção de lesões, mas como uma doença capaz de modificar o ambiente e a anatomia ao redor delas.

Perguntas frequentes sobre endometriose e fibrose

O que é fibrose na endometriose?

É o acúmulo excessivo de tecido cicatricial e componentes como colágeno dentro ou ao redor das lesões, tornando os tecidos mais rígidos e menos elásticos.

Fibrose e aderência são a mesma coisa?

Não. A fibrose modifica a estrutura de um tecido. A aderência une superfícies que deveriam deslizar livremente. Os dois processos podem coexistir.

A endometriose pode modificar a posição dos órgãos?

Pode. Fibrose e aderências podem reduzir a mobilidade e unir ovários, útero, intestino, bexiga ou outras estruturas, alterando a anatomia da pelve.

O que significa pelve congelada?

É uma expressão usada quando aderências e doença extensa deixam os órgãos pélvicos fortemente unidos e com pouca mobilidade.

A fibrose pode causar dor?

Pode contribuir por reduzir a elasticidade, provocar tração e coexistir com inflamação e comprometimento nervoso. Entretanto, a intensidade da dor não depende apenas da quantidade de fibrose.

O tratamento hormonal desfaz a fibrose?

Os hormônios podem controlar sintomas e atividade da doença, mas não há demonstração de que revertam de forma consistente uma fibrose anatômica já estabelecida.

Toda paciente com fibrose precisa de cirurgia?

Não. A indicação considera sintomas, comprometimento dos órgãos, riscos, fertilidade, resposta ao tratamento e objetivos da paciente.

Existem medicamentos antifibróticos para endometriose?

Ainda não existe um antifibrótico aprovado especificamente para a endometriose na prática habitual. Existem pesquisas pré-clínicas e estudos em desenvolvimento.

A fibrose pode comprometer o intestino ou os ureteres?

Pode. Em casos selecionados, pode participar do estreitamento intestinal ou da compressão dos ureteres, com possível impacto sobre o funcionamento dos órgãos.