Como funciona uma consulta com um especialista em endometriose? 10 perguntas respondidas pelo Dr. Maurício Abrão
Uma consulta especializada em endometriose não começa apenas pela análise de uma ressonância ou de um ultrassom. História clínica, sintomas, exame físico, projetos de vida e expectativas da paciente também participam da construção do diagnóstico e das decisões seguintes.
Uma paciente que procura pela primeira vez um especialista em endometriose muitas vezes chega ao consultório acompanhada de uma história que começou muito antes daquela consulta.
Pode trazer uma ressonância magnética recente, ultrassons realizados ao longo dos anos, resultados de exames, prescrições ou relatórios de cirurgias anteriores. Algumas já passaram por diferentes médicos e tratamentos. Outras estão apenas começando a investigar por que sentem dor, apresentam sintomas intestinais ou urinários, têm dor durante a relação sexual ou encontram dificuldade para engravidar.
É compreensível que, diante de tantos exames, exista a expectativa de que a consulta comece por eles.
A paciente entrega a ressonância ou o ultrassom e espera uma resposta: existe endometriose? Onde ela está? Preciso tratar? Vou precisar de cirurgia?
Mas uma consulta especializada não deveria começar tentando responder essas perguntas olhando apenas para uma imagem.
Antes de compreender a doença, existe uma pergunta anterior: o que está acontecendo com aquela mulher?
“Não tratamos uma imagem. Tratamos uma mulher que tem uma história, sintomas, prioridades e projetos de vida.”
Dr. Maurício Simões Abrão
Para entender como essa avaliação é construída, reunimos dez perguntas e pedimos ao Dr. Maurício Simões Abrão que explicasse como pensa a primeira consulta, o papel da história clínica, do exame físico e dos exames de imagem, além de como essas informações participam das decisões que vêm depois.
1. O que o especialista procura entender primeiro em uma paciente?
Antes de tentar confirmar ou afastar um diagnóstico, o Dr. Maurício procura entender por que aquela mulher está ali e o que mais a incomoda naquele momento.
Isso é importante porque nem sempre a principal preocupação da paciente corresponde ao achado que mais chama atenção em um exame.
Algumas mulheres chegam depois de uma longa trajetória de dor pélvica, consultas, exames, tratamentos e até cirurgias. Outras estão no início da investigação. Em alguns casos, a preocupação principal é a dor. Em outros, pode ser a dificuldade para engravidar ou uma dúvida relacionada a determinado achado de imagem.
“O que mais incomoda você hoje?”
Dr. Maurício Simões Abrão
Uma paciente pode apresentar uma doença extensa na ressonância e estar preocupada principalmente com sua fertilidade. Outra pode ter alterações aparentemente menores nos exames, mas conviver com uma dor que compromete profundamente sua qualidade de vida.
A consulta precisa compreender essa diferença.
2. Por que a consulta não começa pela ressonância ou pelo ultrassom?
Muitas pacientes chegam imaginando uma sequência bastante direta: o médico olha a ressonância ou o ultrassom, confirma se existe endometriose e indica o tratamento.
Os exames são importantes, mas o raciocínio não começa por eles.
Antes de interpretar uma imagem, é necessário conhecer a paciente, reconstruir sua história e compreender seus sintomas, tratamentos anteriores, impacto sobre a qualidade de vida, história reprodutiva e expectativas.
Só então aquilo que aparece no exame pode ser colocado dentro de um contexto.
Isso não diminui a importância dos métodos de imagem. Significa que a imagem representa uma das partes da avaliação, e não a paciente inteira.
3. O que a história da dor pode revelar?
Quando existe dor, saber apenas que ela está presente é insuficiente.
O especialista procura entender onde dói, quando começou, como evoluiu, qual sua intensidade e se existe relação com o ciclo menstrual.
Também podem ser importantes sintomas que, inicialmente, a paciente talvez nem relacione ao mesmo problema, como dor para evacuar, sintomas urinários durante a menstruação, dor profunda durante a relação sexual e outras manifestações associadas.
Além disso, é necessário entender como esses sintomas interferem na vida.
A paciente consegue trabalhar normalmente? Precisa alterar compromissos? A dor interfere nas relações sexuais? Existem períodos do mês em que a rotina precisa ser reorganizada?
Quando essas informações são colocadas em sequência, começam a aparecer padrões que um exame isolado não consegue mostrar.
Leitura relacionada: Como o comportamento da dor ajuda a construir o diagnóstico?
4. Por que duas pacientes com exames parecidos podem sentir coisas tão diferentes?
Na endometriose, a extensão da doença e a intensidade dos sintomas não apresentam uma correlação perfeita.
Isso significa que uma paciente pode apresentar doença extensa e poucos sintomas, enquanto outra pode conviver com dor importante sem grandes alterações nos exames de imagem.
Essa diferença é uma das razões pelas quais a história clínica ocupa tanto espaço na avaliação.
Se o tratamento fosse definido exclusivamente pelo tamanho ou pela quantidade das lesões identificadas em uma imagem, parte importante da experiência da paciente seria perdida.
O especialista precisa colocar lado a lado aquilo que a imagem mostra e aquilo que a mulher vive.
5. O que o exame físico acrescenta à investigação?
O exame físico funciona como uma extensão da história clínica.
Ele permite correlacionar aquilo que a paciente descreveu durante a conversa com determinados achados clínicos.
Durante essa avaliação, podem ser identificados pontos específicos de dor, alterações na mobilidade dos órgãos pélvicos e sinais sugestivos de comprometimento de determinadas regiões.
Existe ainda outra informação importante: nem toda dor em uma paciente com endometriose é necessariamente causada pela própria lesão de endometriose.
O exame físico pode ajudar a identificar componentes musculares ou miofasciais que também estejam participando do quadro doloroso.
Isso amplia o raciocínio. Em vez de atribuir automaticamente todos os sintomas a uma única doença, procura-se compreender quais fatores podem estar contribuindo para aquilo que a paciente sente.
6. Se eu já tenho ultrassom ou ressonância, por que às vezes pode ser necessário outro exame?
Ter realizado um exame em outro serviço, por si só, não é motivo para repeti-lo.
A questão principal é: aquele exame responde às perguntas necessárias para tomar uma decisão segura?
Isso se torna especialmente importante quando está sendo considerada uma decisão terapêutica relevante, principalmente cirúrgica.
Um exame de imagem especializado em endometriose não deveria apenas responder se existe ou não a doença.
Quando bem realizado, pode funcionar como um mapa da doença, mostrando localização e extensão das lesões e avaliando possível comprometimento de estruturas como intestino, bexiga, ureteres e ovários.
Se o exame que a paciente já possui apresenta essas informações com qualidade, muitas vezes não há necessidade de repeti-lo.
Quando as informações necessárias não estão disponíveis, pode fazer sentido complementar ou repetir a investigação com técnica adequada e profissionais experientes no mapeamento da endometriose.
7. Encontrar endometriose significa que será necessário operar?
Não.
Encontrar endometriose em um exame não significa automaticamente indicar cirurgia.
A decisão precisa considerar diferentes elementos ao mesmo tempo:
- sintomas;
- idade;
- desejo de engravidar;
- tratamentos anteriores;
- localização da doença;
- possível impacto sobre diferentes órgãos;
- objetivos daquela mulher.
Isso explica por que duas pacientes com imagens semelhantes podem receber propostas terapêuticas diferentes.
A pergunta deixa de ser apenas “existe endometriose?” e passa a incluir outra: “o que precisamos fazer diante dessa endometriose nesta paciente?”
Leitura relacionada: Tratamento para endometriose: como a decisão é tomada em cada caso
8. Por que tratamentos anteriores também fazem parte da primeira consulta?
Saber o que já foi tentado ajuda a compreender a trajetória da paciente.
Não basta registrar que determinado medicamento foi utilizado ou que uma cirurgia já aconteceu.
É importante entender qual era o objetivo daquele tratamento, como a paciente respondeu, durante quanto tempo houve resposta e o que aconteceu depois.
Essas informações ajudam a evitar que a avaliação comece novamente do zero.
A história do tratamento também faz parte da história da doença.
9. É normal sair da primeira consulta sem um diagnóstico fechado?
Sim. Isso pode acontecer e não significa que a consulta tenha falhado.
“Medicina não deve ser uma corrida para colocar um nome em uma doença.”
Dr. Maurício Simões Abrão
Em algumas situações, a história pode ser bastante sugestiva, mas ainda ser necessário um exame de imagem mais específico.
Em outras, podem existir diferentes possíveis causas para a dor, e o desafio passa a ser compreender qual delas tem maior participação no quadro.
Há ainda situações em que a avaliação de outras especialidades precisa ser integrada à investigação.
Por isso, o objetivo da primeira consulta não deveria ser obrigatoriamente sair com um rótulo diagnóstico.
O mais importante é que exista uma hipótese bem estruturada e um caminho definido para esclarecer o diagnóstico e construir o tratamento mais adequado.
10. Como deveria terminar uma boa primeira consulta?
Para o Dr. Maurício, a paciente deveria sair compreendendo pelo menos três pontos:
- O que sabemos neste momento?
- O que ainda precisamos esclarecer?
- Qual será o próximo passo?
Existe ainda uma quarta questão: compreender que o tratamento será individualizado.
Duas mulheres com imagens aparentemente semelhantes podem precisar de estratégias completamente diferentes porque suas histórias, sintomas, prioridades e projetos de vida não são iguais.
“Uma boa primeira consulta não termina apenas com uma prescrição ou um pedido de exame. Ela termina quando existe um plano construído e compreendido pela paciente.”
Dr. Maurício Simões Abrão
A consulta não procura apenas uma resposta. Ela organiza um caminho.
Uma primeira consulta especializada em endometriose pode confirmar algumas respostas, levantar novas perguntas ou mostrar que ainda existem informações que precisam ser reunidas.
História clínica, exame físico e exames de imagem não competem entre si. Cada um acrescenta uma parte diferente da compreensão do caso.
O objetivo é fazer com que essas informações conversem e, a partir delas, construir um caminho que considere não apenas onde a doença está ou o que aparece no exame, mas aquilo que realmente importa para aquela mulher naquele momento da vida.
É essa integração que permite transformar investigação em decisão e decisão em um plano que a paciente consiga compreender e do qual possa participar.
